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Fenômeno El Niño é confirmado e exige atenção no Norte de Minas

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Fenômeno El Niño é confirmado e exige atenção no Norte de Minas
O Norte
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A confirmação do fenômeno El Niño pela agência climática norte-americana (NOAA — National Oceanic and Atmospheric Administration) acendeu o sinal de alerta para o Norte de Minas Gerais. Em uma região marcada pelo clima semiárido e pela intensa atividade rural, os impactos climáticos exigem ações estratégicas imediatas dos produtores. O professor e pesquisador Edson Porto, Doutor em Zootecnia e Pastagens, destaca que o momento exige resiliência. “O produtor precisa saber definir a capacidade de prever situações adversas e agir de forma adequada para que o sistema produtivo se recupere e volte fortalecido após um período de crises climática temporária”, alerta.

Com base no histórico recente de temperaturas elevadas e atraso nas chuvas na região, o especialista divide os cuidados necessários em duas frentes: a formação de novas áreas de pastagem e o manejo daquelas que já estão estabelecidas. Em relação ao primeiro ponto, o pesquisador adverte contra o imediatismo na semeadura. A experiência dos últimos anos mostrou que plantar logo após as primeiras precipitações isoladas de primavera é um erro que costuma resultar em perda de sementes devido ao calor excessivo. Diante disso, a orientação técnica é acompanhar atentamente as previsões climáticas e aguardar o estabelecimento mais consistente das chuvas antes de iniciar o plantio. “A experiência recente mostrou que a perda de áreas recém-semeadas pode ser um risco significativo”, explica Porto.

Para as pastagens que já estão formadas, as medidas preventivas devem focar na conservação de recursos a partir do mês de junho. A principal recomendação do pesquisador é evitar o rebaixamento excessivo do pasto, mantendo sempre o solo coberto para reduzir a evaporação. “Qualquer chuva que venha a ocorrer poderá ser rapidamente perdida se não houver cobertura vegetal ou resíduos de forragem protegendo a superfície e ajudando a conservar a umidade”, esclarece. Além disso, o planejamento deve incluir o uso estratégico de reservas de silagem ou pasto diferido produzidos durante as águas.

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O período de transição entre o final da seca e o início das chuvas, especialmente entre setembro e novembro, é apontado por Porto como o momento mais crítico. Para evitar o superpastejo que destrói os primeiros brotos e esgota as reservas energéticas das plantas, ele recomenda a prática do “sequestro de animais”. A estratégia consiste em retirar temporariamente o gado do pasto e alimentá-lo no cocho com a forragem conservada. “O superpastejo nesse período pode prejudicar a rebrota das plantas quando as chuvas retornarem, reduzindo a oferta de alimento ao longo da estação chuvosa”, reitera o especialista, lembrando ainda que o resíduo pós-pastejo deve respeitar as alturas técnicas recomendadas para cada espécie de capim.

O pesquisador aponta, ainda, a diversificação de cultivares forrageiras como uma importante blindagem para a propriedade. Trabalhar com mais de duas ou três espécies permite ao produtor direcionar o pastejo de forma inteligente de acordo com o tempo de resposta de cada planta. No semiárido, espécies como o capim-búfel, andropogon e massai recuperam-se rapidamente e devem ser priorizadas logo após as primeiras chuvas. Enquanto isso, as braquiárias, que têm resposta mais tardia, ganham o tempo necessário para se restabelecer. “Enquanto as espécies mais precoces podem ser utilizadas logo no início das chuvas, as mais tardias permanecem em descanso, garantindo uma recuperação adequada e maior produtividade ao longo do período chuvoso”, arremata Porto.

Fenômeno recorrente
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico na costa do Peru e do Equador. Quando a temperatura da superfície do mar fica pelo menos 0,5°C acima da média, o fenômeno já é considerado estabelecido. As previsões indicam que pode superar 2°C ao longo do segundo semestre, já sendo classificado como de forte intensidade e, em alguns cenários, os modelos climáticos apontam até mesmo a possibilidade e atingir 3°C.

De acordo com o meteorologista Ruibran dos Reis, ainda não é possível afirmar se teremos um super El Niño, mas os indicativos atuais apontam para um evento entre forte e muito forte. “Para Minas Gerais, especialmente para o Norte do estado, a influência inicial do fenômeno pode resultar em um final de outono e um inverno com maior umidade. No entanto, os principais efeitos devem ser sentidos durante o próximo período chuvoso, quando a distribuição das chuvas tende a ser bastante irregular”, esclarece.

Ele informa, ainda, que a expectativa é de ocorrência de meses mais secos, especialmente entre novembro e dezembro, com volumes de chuva abaixo do esperado também em janeiro e fevereiro, e os impactos mais significativos do El Niño devem ser observados ao longo do próximo ano. “Uma das principais preocupações é a recarga insuficiente dos lençóis freáticos. Com menos infiltração de água no solo, muitas nascentes podem apresentar redução de vazão ou até mesmo interrupção temporária do fluxo. Esse cenário aumenta o risco de escassez hídrica em diversas regiões”, explica Ruibran.

Seca não é novidade
À frente da seleção de gado de cria desde 2019, quando herdou a propriedade de seu avô, o pecuarista Bernardo de Azevedo transformou o maior gargalo da atividade em estratégia de sobrevivência. “O maior desafio que observei foi, sem dúvida, a questão do planejamento forrageiro devido principalmente à variabilidade pluviométrica da nossa região”, relata. Investigando dados históricos que remontam a 1910, o produtor compreendeu que a escassez de chuvas está longe de ser uma novidade na região. “O que importa é que a seca não é novidade no Norte de Minas e que dificilmente o Sertão vai virar mar. Cabe a nós aprender a conviver com ela”, pondera.

A virada de chave começou em 2021, quando Azevedo conheceu o programa Forrageiras para o Semiárido, da CNA/SENAR. Em vez de buscar fórmulas ilusórias, ele baseou seu planejamento em base científica, implantando capins testados e altamente adaptados, como o búfel áridus, o BRS massai e o BRS paiaguás, além de quatro a cinco hectares de palma forrageira.

No entanto, a estiagem severa de 2023, que castigou a região por 11 meses consecutivos, mostrou que a tecnologia precisava de suporte técnico. Para calibrar a taxa de lotação e a capacidade de suporte dos pastos, Azevedo contratou a assistência de um zootecnista. Reforçando as orientações dadas pelo pesquisador Edson Porto, a consultoria identificou que o manejo da carga animal é tão vital quanto o clima. Hoje, diante do alerta de um novo El Niño, o pecuarista se desarma do medo e foca na preparação, carregando o aprendizado de quem desafia o clima semiárido: “A seca não mata, ela ensina”.

FONTE/CRÉDITOS: O Norte

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